Dupla-dobra

A dobra que é dupla, rebatimento, movimento, que se transmite em força e matéria, visual e virtualmente: desde as fotografias que foram usadas como referências de composição para cada pequena gravura em metal, closes de dobras de corpo humano, até as dobras dos tecidos prensados com verniz-mole, chapas corroídas e rebatidas em impressão. Impressões depois expostas com os próprios restos de seus processos de feitura, seus sujos retalhos de tecidos. Tecido e corpo não estão tão distantes. O tecido é um material do contato por excelência, matriz maleável que faz marcas por todos os lados.

Há ainda um universo do falso e da forja: dobras de tule escaneadas que se transformam em falsos mármores serigráficos. Os falsos mármores impressos em papel de algodão e acoplados a placas de gesso, aquelas mesmas que, por sua vez, edificam falsas paredes, inclusive as do próprio espaço expositivo, da galeria. Na montagem, essas placas marmóreas frágeis, foram colocadas na faixa mais baixa do ambiente, assim como desde a Antiguidade romana mármores pintados são usados para decorar a faixa mais baixa de um ambiente interno.

A todo momento se pretende e se pratica o fingere, a manipulação. Uma polarização entre real e fictício, entre contato e invenção, dobra e desdobra. É duplo porque compreende os dois planos, compreende representação e multiplicidade, a memória e o novo. A dupla-dobra: uma maneira de conduzir e de movimentar-se, ato-potência. Dobrar é uma atividade sem fim.

[exposição individual, Memorial Minas Gerais Vale (Belo Horizonte/MG, Brasil), janeiro a abril de 2015].